Scrum - Projetos Ágeis e Pessoas Felizes

Cesar Brod

Capítulos

Prefácio da 3ª edição (rolling edition)

Embarcando na viagem ágil, por Cláudio Machado

Prefácio da 2ª edição

Dos pesquis aos bahs e tchês, passando pelas Cataratas do Iguaçu, por Carolina Borim

Prefácio da 1ª edição

Duas cesarianas no mesmo dia, por Franklin Carvalho

Parte I

Para entender o Scrum

Parte II

A prática do Scrum

Parte III

Aprimorando o Scrum

Parte IV

Outros usos do Scrum

Parte V

Dinâmicas Ágeis

Parte VI

Crônicas do Isolamento Social

Posfácio

A resposta é 42

Capítulo 25 – O que permanece do isolamento social

Sei que eu e muitas das pessoas leitoras desse livro tiveram o privilégio de seguir trabalhando durante o período de isolamento social e acho que a única coisa que podemos dizer, com certeza, é que nos adequamos para sobreviver. Infelizmente, quanto mais distante os profissionais estavam da área de tecnologia, tão mais difícil foi essa adequação.

Ainda é cedo para uma análise conclusiva do que é a tal nova realidade, até porque a realidade vai se moldando a cada dia, com ou sem pandemia. O Manifesto Ágil foi publicado em 2001 e assinado por muitos entusiastas a partir daí. Ele já pregava que responder a mudanças é mais importante do que seguir um plano, sempre reforçando que pessoas e suas interações são mais importantes que processos e ferramentas. 

É fato que, até chegar ao Manifesto, muito já se havia dito sobre a necessidade de comunicação entre as pessoas, com times de produto formados por todos aqueles interessados e com a capacidade para o desenvolvimento de soluções. Salvo raras exceções, uma equipe ágil, até 2020, era um grupo de pessoas trabalhando no mesmo lugar, potencializando a polinização cruzada do conhecimento e momentos que propiciavam o Ba, aquele estado mental a partir do qual as soluções emergem de um combinado de mentes. De uma forma ou outra, equipes que já eram ágeis buscaram, com maior ou menor grau de sucesso, recriar, com ferramentas, a sensação de presença. 

Metaversos surgiram como a promessa de ser uma dessas ferramentas de presença virtual e, enquanto ferramentas assim eram desenvolvidas e outras aprimoradas, em um mundo que passou a ser uma eterna “live” em uma rede social mais aberta ou mais fechada de acordo com a necessidade, as vacinas vieram, venceram e eu tenho até a impressão de que empresas de tecnologia se adequaram mais rápido ao surgimento da pandemia do que ao seu arrefecimento. Uma prova (para mim inconteste) disso são as demissões em massa que passaram a acontecer entre o final de 2022 e o início de 2023.

Pandemia -> Mais gente em casa -> Mais uso de ferramentas sociais de comunicação -> Mais lucratividade -> Mais gente para desenvolvimento e suporte

Fim do isolamento social -> O que vamos fazer com toda essa gente que contratamos?

É claro que essa é uma análise simplista e, como falei antes, é muito cedo para um aprofundamento nessa análise. O que não quer dizer que não devamos deixar de responder a mudanças.

Ouvi muitas opiniões diversas sobre as mudanças nas formas de trabalho durante a pandemia e a principal é sobre a manutenção do home office. Minha filha caçula trabalha em uma grande empresa europeia e, logo após a pandemia, teve que voltar a trabalhar com uma equipe presencial para atender a um grande cliente no continente asiático. Segundo ela, é inegável que o trabalho próximo, presencial, em especial junto aos clientes, acelera a propagação do conhecimento dos problemas e, com isso, as soluções vêm mais rápido. Mas, além disso, há o fator “cultura empresarial” que é manifesto na forma do time, todos trabalhando para uma mesma empresa, dentro de um mesmo projeto, ganhando a vida em conjunto e reconhecendo o alinhamento de seus valores com os da empresa.

Há que se reconhecer que os “valores da empresa” não são os únicos e, talvez, nem os que devam estar à frente quando se pensa em valores, pessoais, familiares e de tantas outras comunidades às quais também pertencemos. Horas no trânsito, especialmente para os que trabalham em grandes cidades, são tempos mais do que perdidos na maioria das vezes: são jornadas no inferno. São momentos em que estamos longe de tudo o que nos é caro. 

Parece-me que, na pandemia, aprendemos a priorizar mais os valores extra-empresariais e as empresas reconheceram a importância de ajudar seus colaboradores a manterem a sua saúde, não por serem apenas boazinhas, mas para garantir a produtividade daqueles que não estavam mais sob a sua visão oito ou mais horas por dia. Acredito que esse cuidado veio para ficar.

Ainda que pareça existir uma tendência dos colaboradores das empresas preferirem o trabalho remoto e as empresas (vários executivos de big techs já se manifestaram quanto a isso) pressionarem para uma volta ao presencial, há muitas coisas ainda a serem resolvidas nesse conflito de forças.

  • O custo do espaço nas grandes cidades: as empresas estão começando a perceber que manter um local puramente para o trabalho presencial, em especial em grandes centros, é mais caro do que aceitar uma queda de produtividade (se é que ela existe mesmo) em função do trabalho remoto e investir para mitigar essa queda de outras maneiras. Ninguém consegue ser feliz com muitas horas de deslocamento.
  • As justificativas para um retorno ao trabalho presencial estão mesmo relacionadas à facilidade maior para a polinização dos conhecimentos, velocidade na descoberta de problemas e soluções, ou estão mais próximas da necessidade de pessoas gestoras que ainda acreditam em comando e controle, mesmo que não assumam abertamente isso?
  • Do lado dos colaboradores, mesmo reconhecendo que a convivência familiar, entre amigos, entre a comunidade próxima, são importantes, não há um certo ranço em estar próximo de uma estrutura hierárquica por meio da qual sente sua liberdade tolhida? Não é essa estrutura que ainda precisa ser repensada?

Extremos sempre existirão. Mesmo antes da pandemia, várias pessoas preferiam trabalhar isoladas por motivos reais ou ilusórios e muitos “chefes” queriam uma equipe que ficasse sob o seu controle muito próximo.

Até mencionarei alguns fatores que implicam em pressões que considero artificiais, negativas e externas ao ambiente saudável de trabalho, mas que deixo como anotação, sem desenvolvê-las.

  • O mercado imobiliário ainda tem chance de entrar em crise se grandes empresas desistirem, no limite, do trabalho presencial, e entregarem seus prédios. E considerando o amplo grupo de acionistas que investe em empreendimentos imobiliários e tecnológicos ao mesmo tempo, o quanto é interessante um movimento assim?
  • Antes de ser resolvido o problema do deslocamento entre subúrbios e cidades, é grande a movimentação financeira que implica na compra de automóveis, combustíveis e os impostos que geram recursos para governos a partir daí. De novo, quem são os acionistas dessas empresas de transporte e combustível?
  • Com a preocupação que as pessoas passam a ter com sua saúde e o tempo e consciência do que precisam fazer para manter uma vida mais saudável, quais serão as implicações disso na indústria farmacêutica, hospitalar e outras associadas. E quem são, de novo, os acionistas envolvidos?

Pessoas e suas interações são, de fato, mais importantes que tudo, incluindo relações e necessidades artificiais de mercado. O que eu espero que permaneça do isolamento social é justamente a preocupação social. 

Mas, dito isso, somos seres gregários em grande maioria e espaços de encontros presenciais profissionais também devem ser proporcionados. Gostamos de estar juntos quando isso não é uma imposição artificial.

Em seu fantástico livro “O Palhaço e o Psicanalista“, Cláudio Thebas (que escreveu o livro em parceria com Christian Dunker, descreve uma experiência, no Capítulo 6: “Depois que a gente brinca, a gente fica amigo”. A brincadeira não é um processo hierárquico. Até o contrário, naturalmente ela tende a quebrar hierarquias. De brincar a gente gosta. Estejamos juntos com gente que gosta de brincar conosco e tudo vai fluir naturalmente.

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Prefácio da 3ª edição (rolling edition)

Embarcando na viagem ágil, por Cláudio Machado

Prefácio da 2ª edição

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Parte I

Para entender o Scrum

Parte II

A prática do Scrum

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