Capítulo 15 - Scrum na escola, na família, na vida

Posted on: qui, 08/29/2019 - 09:44 By: Mônica Chiesa

Não há limites para o uso do Scrum.

A seguir, você ainda terá uma parte V dedicada a dinâmicas e toda uma seção com referências. Espero que concorde que a abordagem de deixar as referências mais para o final do livro foi, de fato, apropriada. Nela você encontrará links que levarão a outros links e que, provavelmente, o conduzirão a uma jornada de aprendizagem tão excitante e motivadora quanto essa em que também estou, mas certamente diferente, já que na infinidade de informações na web seu caminho lhe permitirá encontrar outras novidades e outros esclarecimentos. Não deixe de compartilhá-los!

Se você pensar bem, verá que muito do que você precisa desenvolver é um produto: desde um trabalho qualquer de escola até aquele de conclusão de curso, uma dissertação ou tese. Os trabalhos em grupo, então, são candidatos excelentes à aplicação do Scrum. E com toda a informação na web e o acesso cada vez maior de alunos a dispositivos móveis, não seria interessante que a ementa de um curso virasse um Product Backlog e que os alunos, durante o semestre letivo, trabalhassem com seu professor (que poderia exercer o papel de um Scrummaster) na definição dos Sprints de aprendizagem? Ideias assim já começaram a ser debatidas, por exemplo, na fanpage Scrum in Schools no Facebook, onde, claro, há links e mais links para informações adicionais (ver Figura 15.1). Mais recentemente, o agilista Michael Vizdos fez um excelente relato de sua experiência com o Scrum na educação (ver https://www.michaelvizdos.com/scrum-in-school.html)

Em uma palestra ministrada em fevereiro de 2013 para o TED, Bruce Feiler, autor de The secrets of happy families, propõe o uso de métodos ágeis para as famílias modernas. Inspirado no Manifesto Ágil e no Scrum, Feiler sugere práticas familiares que encorajam flexibilidade, fluxo de ideias a partir das crianças, iteração constante e responsabilidade. Se um castigo for necessário, as próprias crianças escolherão seus castigos.

Figura 15.1 – Fanpage Scrum in Schools no Facebook.

E por que limitar o Scrum a produtos, desenvolvimento de software, projetos, trabalhos de aula, família? Por que não pensar no Scrum como um processo sistemático e simples para resolver problemas maiores, nacionais e globais?

Tive a grata experiência de, por quase um ano, trabalhar como coordenador geral de Inovações Tecnológicas no Ministério do Planejamento no Brasil. Uma das equipes sob minha coordenação era a da Infraestrutura Nacional de Dados Abertos, e um dos produtos entregues por essa equipe foi o Portal Brasileiro de Dados Abertos (http://dados.gov.br). Os requisitos desse portal foram definidos em reuniões com a sociedade civil, usando notas adesivas e um quadro branco para a escolha e a priorização de tarefas, em grupos que trabalhavam em parte no local e em parte remotamente. Não podíamos dizer que era um Scrum clássico, pois os desenvolvedores de minha equipe ora trabalhavam como a equipe Scrum, ora como Scrummasters de equipes formadas por voluntários da comunidade e de outros órgãos do governo. Eu ora trabalhava como Product Owner, representando os requisitos da sociedade civil, e ora como Scrummaster para a minha própria equipe, buscando eliminar os vários impedimentos que surgiam. Mesmo que, muitas vezes, por pressões hierárquicas e exigências burocráticas, não pudéssemos ter um Scrum pleno, estávamos sempre atentos para evitar cair no Scrum Bunda. Porém o fundamental era que todos nós conhecíamos o Scrum e sabíamos o que gostaríamos de ter e de poder oferecer aos nossos clientes: os membros da sociedade civil brasileira.

Considero o Portal de Dados Abertos do Brasil um exemplo de que é possível usar o Scrum e os métodos ágeis mesmo em ambientes pouco favoráveis, como os ambientes extremamente hierarquizados e burocráticos de governos (deixemos à refração à transparência fora desse livro, mas dentro do necessário espaço de debate cidadão). Basta pôr mãos à obra e ter um grupo corajoso. Fico muito feliz em ver como, em um tempo de desenvolvimento bem curto (menos de seis meses para a entrega da primeira versão funcional do portal), já foi possível expor aos cidadãos dados que estão sendo, agora, mais bem digeridos e formatados por aplicativos desenvolvidos por grupos como o pessoal bacana da Transparência Hacker. Para mim, esse é um dos exemplos de como o Scrum e os métodos ágeis podem acelerar processos de mudança em âmbito nacional.

Entretanto hoje, com as fronteiras fluidas que a internet nos possibilita, não podemos nos dar ao luxo do confinamento a pequenas geografias. Nosso mundo é um só, com problemas globais. A criação de uma cultura ágil, já a partir da formação do cidadão nas famílias e nas escolas, permitirá que as pessoas entendam melhor a dinâmica do mundo e proponham soluções para problemas de distribuição de renda, miséria e fome.

Pensar o mundo, em sua forma ágil e dinâmica, pode nos libertar de estruturas antiquadas (como os atuais governos e as instituições financeiras) que já não fazem mais sentido com a tecnologia que temos ao nosso alcance. Por que, por exemplo, gastar fortunas com uma democracia representativa que exige casas como senado, congresso, câmaras estaduais e municipais, se temos como colocar nosso voto e nossas opiniões diretamente para os que estão no poder executivo e fiscalizar a atenção aos nossos requisitos e desejos? Por que pagar taxas a instituições financeiras quando tecnologias peer-to-peer e contratos inteligentes já nos permitem trocar valores diretamente, sem intermediários?

Certamente, a construção de um mundo melhor passa pela adoção de métodos e processos que reconheçam a dinâmica das mudanças e nos levem a um patamar de simplicidade muito acima de qualquer complexidade e amarração burocrática. Lembre-se do Manifesto Ágil (já com sua pequena edição proposta neste livro):

•    Indivíduos e suas interações são mais importantes que processos e ferramentas.

•    Entregas funcionais são mais importantes que documentação abrangente.

•    Colaboração com o cliente é mais importante que negociação de contratos.

•    Responder a mudanças é mais importante que seguir um plano.

E, complementando com a sugestão do agilista Ilan Goldstein:

•    Atitude é mais importante que aptidão!

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